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Blog de belbruno
 


O escritor
 
Havia um quê na história, que nunca consegui decifrar.
Um tanto de lenda, um tanto de mito, aquela mania
de misturar o real e o imaginário....
 
Belvedere Bruno
 
 
Diante de suas narrativas, sentia-me vazia de vida.  Enriqueceria  o seu dia-a-dia com a força da   imaginação de escritor?  Assim pensando,  conseguia me  conformar  com   aquela   eterna sensação de viver em câmera lenta. Como tudo podia ser tão efervescente na vida daquele homem?
 Por  vezes , os fatos  soavam  até inverossímeis, mas sentia que, para ele, era vital  aquela dose extra de adrenalina que o processo de criação lhe proporcionava. Narrando,  ele acreditava, e aí estava a força dos fatos.  Sentia que não havia mentira, ao menos da forma convencional . Criando,   roteirizava  a vida, o   que o  tornava um   ser incomum.   Fazia-me  sentir novos  sabores, ver   matizes inimaginados,  aspirar aromas  inebriantes.     Mas onde estaria a realidade naquele mundo que  parecia delirante e,  nem por isso, menos encantador?  
  Subitamente, me vi fora de prumo.  Na   mente , um emaranhado de idéias desconexas.  Tateando, busquei   bússolas...
O  ponto final foi inserido no contexto por conta da  minha total  falta de habilidade em separar o mundo real daquele mundo  colorido de faz-de-conta. Não tinha, como o escritor, o dom de viver em universos paralelos. Disse-lhe  adeus .  Um adeus sem cores e  fantasias. 
                                                      Voltei, então,  a viver em câmera lenta.
 


Escrito por belbruno às 15h46
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LA ESPERO, de Belvedere Bruno

 

Tradukis Neide Barros Rego (esperanto)

 

Viraj rigardoj ĉiam starigis al ŝi la demandon: – Ĉu estas li? Kial ne? Liaj okuloj estas nigraj kiel la miaj kaj la brovoj dikaj.

 

Kial li tiom rigardas min, se ne estas li? – Tiel ŝi opiniis en sia infana naiveco.

 

La tagoj pasis kaj ŝi pli kaj pli havis la fiksan ideon, antaŭvidante la renkonton de sia vivo.

 

Jarojn poste ŝi fariĝis seksalloga virino, altirante ĉies rigardojn: lascivajn, vulgarajn, enviajn. Tamen, ŝi ankoraŭ strebis  vidi en  ili, kion ŝi ĉiam serĉis, forpuŝante iun ajn  signon  de neebleco. Ŝi renkontos la rigardon, pensis ŝi, ĉar tie loĝas la kialo de ŝia vivo.

 

La haroj blankiĝis kaj la serĉo ne ĉesis.. En la teneraj rigardoj direktitaj al ŝi en ŝia maljuneco, ŝi ankoraŭ imagas, ke ŝi povos renkonti lin. – Jes, ŝi povos, kial ne? ŝi diras al si mem.

Promenante tra la parko en dimanĉa posttagmezo, ŝi subite  stumblis kaj falis sur plankon. Iu tre maljuna sinjoro venis al ŝia direkto por helpi ŝin. Leviĝante, ŝi fikse rigardis lin, kaj prenante liajn brakojn ŝi tremante demandis: – Ĉu estas vi, paĉjo?

 

La viro, ne dirante ajnan vorton, turnis sin kaj daŭrigis la promenadon.



Escrito por belbruno às 16h41
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Amém
 
Belvedere Bruno

A cada filho que partia, ela dizia amém. O que pensaria  acerca das  mortes sucessivas? Nunca entendi o porquê de tanto amém. Nenhum pranto ou  desespero. Só conformação. Rememoro a face de cada um que se foi, os túmulos, as  flores, a perplexidade dos que ficaram.
 
Um véu negro sobre a cabeça, os  améns sem lágrimas,  o olhar impassível; e a entrega plena retratada  tão-somente no desfiar de rosários.
 
O tempo passava e sua existência seguia  numa sucessão de rotinas vazias.  O único  filho que lhe restara era o elo que a mantinha, mesmo que de forma frágil, ligada à vida.
 
Onde guardara a dor e  as indagações reprimidas ?
 
Quando o último filho partiu, tudo transcorreu da mesma forma. Apenas  quis  que a deixassem só    após o sepultamento.
  
Naquele dia, foi como se o seu coração se partisse feito uma taça de cristal jogada ao chão,  e cada estilhaço representasse as tristes e sempre represadas dores  de sua vida.
 
Chegando  em casa, sentou-se na cadeira da varanda e, olhando para o céu, esboçou um sorriso. Nas mãos, tinha o véu envolvendo cuidadosamente  o rosário. O semblante parecia , enfim,  pacificado.
 


Escrito por belbruno às 18h51
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Menina-flor

 

Belvedere Bruno

Ah, saudade! Lembro-me dela com aqueles cachos nos cabelos, espevitada, ao mesmo tempo que terna.  Sua maior distração era caracterizar-se de artistas hollywoodianas.  Horas sem fim diante do espelho, esmerando-se  em  maquiagens, penteados, trejeitos. Nos finais de semana,  representava no teatrinho armado ao  fundo do quintal da casa onde morava. Platéia fiel. Quem sabe, será  uma atriz?- era a voz corrente no bairro.
 
 Mentalmente, revejo-a  vestida com o uniforme colegial, carregando livros e cadernos,  sempre reclamando da matemática, que dizia ser o  único entrave na  sua vida. 
 
Sobrancelhas espessas e arqueadas, olhos cheios de miopia, fazendo-a  trocar fulano por beltrano e gerar inimizades por conta do "ela  passou e fingiu que não me viu" . Desculpava-se de tudo culpando o defeito ótico,  que dizia ser herança dos avós.   Não se permitia usar óculos. Eram vitais os  traços de lápis negro delineando os olhos. Que  mal havia em  não enxergar bem?-  dizia.  Era bonita  naquele  franzir de cenho e apertar dos  olhos, tentando  descobrir coisas e pessoas.  Por vezes, parecia contraditória  no modo de ser. Uma desenvoltura que não combinava com a aversão a namoros precoces. Enquanto as amigas flertavam, ela lia clássicos contemporâneos. Nada tinha de genial. Simples questão de autenticidade.
 
 Quisera  resgatar essa menina! Menina-flor!
 
Em sonho, vejo  alguém  caminhar em minha direção. A princípio, tudo é turvo, mas, aos poucos, identifico rosto, corpo e, emocionada, ouço a sua voz. É  ela! Avidamente, beijo e abraço a pequena, como se pudesse retê-la para que nunca mais se perca de mim. É forte o desejo de poupar-lhe dores e lágrimas futuras. Olhando-me firmemente, diz:-  Viva seus sonhos! Sem medos! A garotinha ainda existe em você, pois  não morri! - frisa. E sorri.
Emoção indescritível! Era eu, madura, no meu hoje,  abraçando a menina que fui um dia.
 
 Afastando-se, disse adeus, acenou, deixando-me em lágrimas. No corpo ainda florescendo, aquele vestidinho de fustão branco, com  bordado na gola...
 
 
 

 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 



Escrito por belbruno às 15h55
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Enclausurada
 
Belvedere Bruno
 
 
O tempo escorre pelos meus dedos enquanto, avidamente,  busco o que já se foi.  A vida é  breve. Tal qual um sopro, um suspiro, um clímax. Para onde foram as  antigas emoções? Por vezes, em sonhos, parecem me envolver .  Puro devaneio de minh'alma inquieta!
 
  Insisto nessa fuga. Entrego-me inebriada aos sons, aromas e imagens de um passado longínquo. Distancio-me da fragilidade do agora, quando sinto o peso da impermanência. Busco  eternidades!  Imersa no ontem, meus  dias correm sem qualquer lampejo  de razão  que me  conecte ao hoje.
 
Permitam-me estar, sem interferências salvacionistas, no Templo que escolhi. Dispenso sagrações!
 
 Quem sabe, em algum  paraíso cósmico,  eu encontre o que me  parece perdido ? 
Estrangeira de mim.  Enclausurada na  irrealidade de meus sonhos, para todo o sempre.
                 _Ou  até que se desvende o grande mistério ao qual chamamos  Vida._
 
 
 
 
 
 


Escrito por belbruno às 11h25
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A espera

Belvedere Bruno


 Olhares masculinos sempre lhe traziam a pergunta: -   Será ele?  Por que não? Tem olhos negros como os meus e sobrancelhas grossas.  Por que me olharia  tanto, se não fosse? -Assim pensava na ingenuidade  de sua infância  .  Os dias passavam e mais envolvida ficava, vislumbrando o encontro de sua vida.
Com o passar dos anos, tornou-se uma mulher sensual , atraindo  todos os tipos de olhares. Lascivos, vulgares,  invejosos.  Contudo, ainda  tentava ver neles o  que sempre buscara,    repelindo   qualquer lampejo  de   impossibilidade .     Encontraria o olhar, pensava, pois  ali residia  a  razão de sua vida.
Os cabelos embranqueceram e  a busca não cessara. Nos olhares ternos que lhe dirigiam em sua senectude, ainda  imaginava que poderia encontrá-lo.   - Sim , poderia,  por que não?- dizia para si mesma.
Passeando pelo parque numa tarde de domingo, subitamente tropeçou  e caiu ao chão. Um senhor, bastante  idoso, veio em sua direção para ajudá-la. Erguendo-se, olhou-o fixamente e,  segurando seus braços, perguntou trêmula : -  É você, papai?
O  homem , sem proferir palavra, virou as costas e, balançando a cabeça , continuou  sua caminhada.


Escrito por belbruno às 16h00
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Uma vida em sonhos

Belvedere  Bruno



Vivia imersa em sonhos.  Decerto, neles existiam  as  cores,  os sons e os sabores, que, há muito, haviam sido   subtraídos de sua vida, sem que soubesse a razão.  Era enternecedora a suavidade em seu semblante quando  adormecia se aconchegando  entre  perfumados travesseiros e  edredons.  A vida  ao vivo já  perdera  a  graça.  Acordada, não sabia quem era filho, neto, bisneto, sempre  trocando seus nomes e falando sobre fatos remotos como se fossem atuais. O ontem  parecia o  hoje  de forma  fragmentada.
  Afagando  seu   rosto, a chamávamos pelo nome, suavemente, para que não despertasse assustada: "- Marta, Marta..." Ela entreabria os olhos, e sorríamos, ao perceber que ainda se reconhecia . Esperávamos suas palavras, a interação no nosso dia-a-dia, mas logo buscava o ontem, proferindo frases desconexas, com o olhar vago, constantemente  a murmurar : "- Pedro...Pedro...."
Os dias se passavam e mais Marta se isolava da vida fora dos sonhos, cujo enredo só ela sabia. Eram paragens que sequer imaginávamos como seriam.
Naquela madrugada, talvez pela força do vento, caiu a imagem do santo de sua devoção, juntamente com o vaso de margaridas, espatifando-se ambos.    O amanhecer , no entanto, chegou  pleno de azul, e Marta parecia sorrir, como se abrisse os  braços para o mundo. Os olhos já  não miravam o vazio.
  Pedro conseguira, enfim,  transpor  a barreira do tempo e do espaço  e, delicadamente,  a conduzia  para outra dimensão, ali, onde ela, de fato,  sempre fora  feliz. De mãos dadas, atravessaram o grande portal . Do  outro lado  da margem, enternecida, ainda ouvia vozes que a chamavam:  " -    Marta....Marta .... "
                    Seguindo o caminho, não olhou para trás.
 

 
 
 
 
 


Escrito por belbruno às 18h10
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Um dia, quem sabe?


A Jorge Amado, in memoriam


Num bloco de couro, antigo, onde coloco os títulos de livros que leio, hoje registrei o número 923: 64 contos, de Rubem Fonseca.

Faço uma retrospectiva através dessas páginas e me vejo muito jovem, lendo A Divina Comédia, de Dante. Para muitos, seria um desestímulo começar com tal título, mas para mim foi tão extraordinário, tão cheio de encanto, que me apaixonei por livros. Comecei, então, a devorar clássicos antigos e contemporâneos. De Dante, passei a Camões, Milton e, a cada dia, mais me integrava ao mundo das Letras.

Houve época em que só lia Jorge Amado. Devorei todos os livros da coleção distribuída por Fernando Chinaglia. Jorge tem um estilo que me leva aos locais descritos, e até me sinto interagir mentalmente com seus personagens, que sempre me parecem familiares. Jorge Amado marcou minha carreira de leitora. Lembro-me de que, quando ia a Salvador, me hospedava numa casa na Rua Alagoinhas, bem perto de onde ele residia. Tudo fazia para encontrar meu ídolo. Nunca tive sorte, mas as pessoas diziam: - um dia, quem sabe? Da última vez que fui, ele não estava mais lá. Decerto já havia até se encontrado com todos os seus personagens! Senti saudade do tempo em que não conseguia encontrá-lo, pois sempre havia a esperança implícita na frase: - um dia, quem sabe?

E fui conhecendo um mundo maravilhoso... Clarice Lispector, Dalton Trevisan, Cecília, Drummond, Adélia, Pessoa, Lorca, Florbela, Neruda, Hemingway, Jean Paul, Simone...

Agora, tenho opinião firme em relação às minhas preferências literárias. Thiago de Mello é meu poeta preferido.  O escritor Bernardo Carvalho foi uma surpresa, um impacto na minha carreira de leitora, assim como Mia Couto. Por vezes, me peguei prendendo a respiração enquanto lia Nove noites, de Bernardo e Estórias abesonhadas, de Mia. Permaneci em estado de encantamento por um longo período.


Um dia, quem sabe, eu venha a ser uma escritora, na verdadeira acepção da palavra.

Que eu continue dizendo: "um dia, quem sabe?", estando, aí, viva, a chama da esperança...Que seja uma espécie de mantra.

Diferente daquele dia em que passei defronte à casa de Jorge Amado e, com tristeza infinita, devido à sua ausência, não pude mais ouvir a frase que sempre me acompanhava nas passagens pela Rua Alagoinhas.


Belvedere é colunista do Jornal Santa Rosa - Niterói - R.J

 


Escrito por belbruno às 19h13
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Em torno da saudade
 
A Artur da Távola - in memoriam
 
Belvedere Bruno
 
Naquele estado entre a vigília e o sono, entrevi  seu sorriso, e senti-me envolvida por um suave estremecer. Pensei que seria bom enviar-lhe meu último conto, O homem e as flores. Não havia, não sei por que motivo, partilhado com ele a emoção daquele texto curto e um tanto inusitado. Sabia, no entanto, que ele teria gostado. Saindo daquele estranho torpor, despertei. Vi-me, então, frente à realidade, e   uma tristeza indescritível tomou conta de mim.  Nunca mais  ele voltaria a ler, a comentar meus textos, a fazer sugestões e a trocar idéias sobre eles; e  esse era  um hábito ao qual me acostumara nos últimos anos. Era uma amizade   sincera , que sempre prescindira de comentários e alaridos  em torno dela.
Não fui pega de surpresa com sua partida. Nos últimos tempos, havia silêncio. Mensagens  monossilábicas me soavam como ritos de despedida.
É difícil preparar-se para um desfecho triste. Dói. Mas nada se  compara à dor da certeza de que tudo realmente  acabou.
Deixei que o tempo passasse,  e agora , aquietada , posso  falar sobre a falta que ele  me  faz.
Dizem que ninguém é insubstituível. Discordo, já que todos são diferentes, têm as suas particularidades: uns, quase perfeitos, e outros, adoráveis por seus defeitos. 
 Tive a  grata oportunidade de entrevistar Artur da Távola no ano de 2005, e  marcou-me, de forma indelével, a resposta que dera em relação à grande lição obtida através de seu exílio. Transcrevo suas palavras:
"Aprofundar o meu conceito de democracia, que me fez sair de um socialismo um tanto ingênuo e penetrar na social-democracia. O outro sentido foi o de verificar o quanto amo este país. E o terceiro, foi aprender o significado real da palavra saudade..."
Nunca haverá quem preencha o vazio que ele  deixou em minha vida. Guardarei  na memória seu constante  incentivo  às minhas letras, sua  generosidade e  suas ponderações, que sempre  me serviram como  verdadeiras diretrizes  de segurança.
  Que  sons  sublimes acompanhem seu  vôo, juntando-se  às  amorosas vibrações de todos os que mereceram a amizade, a atenção e a confiança desse ser humano ímpar.
  Quisera poder, como o personagem Marcos, do conto O homem e as flores, derramar lágrimas perfumadas para o meu  querido amigo que se foi.


Escrito por belbruno às 16h19
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O homem e as flores

  Belvedere Bruno



  Rosane não escondia  sua insatisfação. Marcos sempre fora um homem de  metáforas. Enquanto ela continha diques, enfrentava tsunamis e  erupções vulcânicas, ele mastigava pétalas de rosas  . Ela era ação. Ele, meditação. Puro antagonismo. Nunca se soube porque um dia decidiram que, ficar juntos, seria o melhor para equilibrar as diferenças . O tempo apenas as fortaleceu.
  Rosane dizia : - Cansei de viver com um sonhador. Sou pé no chão, gosto de  tudo  às claras. Odeio subterfúgios !   Marcos respondia calmamente : - Retire as  rosas pálidas do buquê e deixe  apenas  os botões .Aguarde  o florescer. 
- Rosane se inquietava, vociferando :  - Raios! Você  com   essa eterna  mania de poesia! Estamos  falando sobre a  vida, o  dia-a-dia, o desgaste de nosso relacionamento e você  só raciocina em forma  de  versos ? -  Mas  Marcos nunca abandonou o lirismo, avesso que era às coisas densas da vida.  A poesia era  o seu porto seguro. Morreria assim, mesmo se chegasse aos cem anos, dizia.
  Crucial o viver daqueles dois amantes. Rosane era exuberante  em  sua clareza. Marcos se encolhia no  constante degustar de flores.
  Um dia, sem justificar o ato,  Rosane  destruiu o jardim da casa.   No lugar  das flores,  surgiu uma piscina térmica  sofisticadíssima.   Marcos, engolindo suas lágrimas, deu adeus às rosas, tulipas, gérberas, palmas, samambaias e avencas. 
 Anos depois, num canto  da casa,   escreveria,  em versos,  a história de sua vida, alheio a tudo e a todos. Acompanhava-o um copo de suco de flores, com dois  cubos  de gelo .
                                  Dos  seus olhos, pingavam  lágrimas perfumadas. 






Escrito por belbruno às 17h12
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Esse universo virtual

Belvedere Bruno

Desde criança, gostava de escrever cartas e enviá-las para os amigos que moravam na mesma cidade . Era uma troca deliciosa, embora causasse espanto àqueles que não estavam inseridos no contexto. Com o advento da internet, fui abandonando o hábito, mas dele me recordo com muita  saudade.
 O mais moderno meio de comunicação poderia ser perfeito se  o correio  eletrônico  não fosse utilizado  de forma compulsiva, sem critério. Regularmente, são feitos repasses de  mensagens irrelevantes  e, muitas vezes, duvidosas, sem que haja o  menor cuidado em lhes verificar a  procedência .  Por que não há mais trocas pessoais e menos envios generalizados?  É a vitória da impulsividade, do imediatismo. 
Há pessoas  que parecem não ter vida própria fora dos domínios da internet, tamanha  é a sua compulsão  pelo correio eletrônico, utilizando-o sempre de forma insensata.   Sequer lêem quando são alertadas sobre os envios excessivos de mensagens, pois sendo centradas em si mesmas, aquilo que lhes chega às mãos, infelizmente, não tem  a mínima importância.  Já nem comento sobre aqueles que vêm e vão, sem dar satisfação nenhuma.
 Estou muito seletiva, confesso.  O tempo voa e não pode ser desperdiçado.  Felizmente, nos meus contatos, há quem chegue como raios de sol, iluminando a minha telinha.  Poesias, prosas, pinturas, ou simplesmente, um como-vai-você...    São essas pessoas de bom senso  que me fazem permanecer .
 Penso lançar em breve uma campanha em prol da utilização  equilibrada  dessa ferramenta preciosa que é a internet. Enquanto isso não acontece, faço um  apelo: me poupem, por favor!
A propósito, como vai você, amigo?



 



Escrito por belbruno às 17h52
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O segredo das conchas 



  Belvedere Bruno


 
Quando Henrique foi chamado para ocupar a vaga de motorista particular da família Martins, ficou eufórico. Ganharia seis  vezes mais do que no prédio em que trabalhava como porteiro na Avenida das Amendoeiras. Não entendia como seu amigo José Luís havia sido dispensado por justa causa, sendo homem tão correto.

  Os dias transcorriam naturalmente. O trabalho era normal, como o de qualquer motorista particular.

  Certa tarde, Margarete , a patroa, chamou-o para levá-la à clínica de estética.
 
- Henrique, estou precisando de uns tratos. O carnaval está chegando, adoro desfilar em escola de samba, e preciso, urgentemente, dar uma endurecida na bunda, uma  levantada nos peitos, fazer  umas massagens....

  Henrique  a ouvia em estado de perplexidade. Como podia falar assim com um empregado?

   No caminho para a clínica,  Margarete pediu-lhe que desviasse, pois queria dar um mergulho na Praia das Algas, local preferido pela elite da cidade.

   Quando estacionou o carro, ele,  que  não conhecia o lugar, ficou extasiado ao olhar aquele céu azul, a água cristalina, as conchas  em profusão.
 
 - Que sensação de paz! -  pensou.

  Ela, esfuziante, começou a retirar as roupas, peça por peça, até mostrar-se em toda exuberância. Correu pela areia e mergulhou. Ao sair da água, encontrou Henrique de braços abertos e transformaram a praia em verdadeiro paraíso de explosões orgásticas.

  O fato passou a repetir-se com freqüência, ficando Henrique cada vez mais apaixonado por aquela mulher tão livre de preconceitos.

  - Não vejo a hora que ela largue o marido.... O cara é um velho,  tem vinte anos a mais do que ela, eles  não têm filhos, tudo vai ser fácil pra nós. -  E assim ele fazia  seus planos.

  A festa de Natal estava próxima. Margarete  decidiu fazer reformas na varanda da mansão. Havia uma equipe de trabalhadores em movimento. Ela fazia questão de supervisionar os serviços diariamente. Henrique  sentia falta das idas à praia.  Margarete quase não lhe dirigia  a palavra nos últimos tempos.

  Certa manhã, enquanto tomava o café, ouviu um dos pedreiros comentar, em meio a risadas,  sobre ida à Praia das Algas. Henrique chorou convulsivamente. Sentado em um canto, cabeça baixa, sentia  que  os pensamentos  o martelavam como se fossem estourar sua cabeça.  Tremia.   Não conseguia sequer articular  palavra .

  Naquele mesmo dia, Margarete pede que a leve ao dentista. No caminho, Henrique  faz um desvio e ruma à Praia das Algas, sob veementes protestos dela.

   Parando o carro, observa a praia deserta .  O mesmo céu azul , a mesma água límpida e a profusão de conchas. Não mais aquela sensação  de paz. 

 Henrique a  puxa bruscamente para fora do  carro, rumando ambos para o mar.

 O som que Margarete passa, então, a emitir é ofegante. Gritos e gestos levam-no à lembrança daquele dia, quando se encontraram pela primeira vez . Misto de dores e prazeres...


E vem o silêncio.

  Caminhando sobre a areia, Henrique  contempla o horizonte, imaginando a longa estrada  que terá que percorrer até que chegue ao seu destino.


Escrito por belbruno às 16h20
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Fotografias



Belvedere Bruno

 

Relutava em abrir o baú onde guardava as fotografias  das diferentes   fases de minha vida. Sentia que,  se o fizesse, de  certa forma abriria as portas para  os fantasmas que tão bem descansavam naquele lugar. Havia fechado o baú há mais de trinta anos.  Para que  mexer no que estava quieto?  Uma voz vinha  lá do fundo de mim, falando sobre prudência, mas, na verdade, esta  era  uma palavra que eu sempre desconhecera.
 Confesso ser um tanto frio nas questões pessoais . Passado é passado. Fico refletindo sobre o  que leva as pessoas  a  remexerem no ontem,  como se isso fosse dar vida ao hoje.
Há  trinta e dois  anos resido em Paris, sou casado, tenho dois filhos . Esqueci o passado,  integrando-me ao presente e planejando o  futuro.Não faço parte da maioria  das pessoas que tem mania de saudade e sofre de   nostalgias ...  
 Não sei como descobriram meu telefone. Vivem me ligando do local onde nasci  e passei minha juventude. Por que não me deixam em  paz? Sempre digo a mesma coisa: que me esqueçam, porque, se saí  sem nunca mandar  referências , considero uma violação de privacidade terem descoberto o número do telefone e começado esse assédio.
Voltando ao báu, não sei se o abro. Quando decidi trazer as fotografias, foi para preservar as lembranças, não para mim, mas  para as gerações futuras.
O cerco acabou por me levar a sentir vontade de  rever  determinadas pessoas, mas,  sinceramente , nem  sei se lhes recordo as fisionomias.
Enfim, abro o baú e um cheiro de mofo  impregna o ambiente.  Jogo as fotos  no chão. Minha cabeça parece explodir. Tudo se embaralha: pessoas, datas, locais.  
No entanto, uma foto me atrai como um ímã. É Eliana, presença que embalara meus sonhos juvenis . Parece me fitar, sorrindo.     Por um   longo  período,  mantenho aquela foto  em minhas mãos, querendo, a todo custo,  reter o seu  sorriso.  Quanta saudade!
Desperto do devaneio com os olhos marejados.  Impetuosamente, jogo  todas as fotos de volta ao  baú.
  Sou muito feliz, só não entendo por que  o passado cisma em me importunar, se dou valor apenas ao  presente .
 
 


Escrito por belbruno às 17h09
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http://www.ebooks.avbl.com.br:80/biblioteca1/belvederebruno.htm

MEU E-BOOK

Escrito por belbruno às 10h17
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Um não sem razão...

Belvedere Bruno



Muitas vezes, sinto a rejeição vindo de forma que nenhum motivo exista para que ela se vista com tamanha exuberância. São pareceres baseados em abstrações, medos ocultos e, algumas vezes, egoísmo fantasiado de precauções. Um tremendo "não" à vida espontânea, ao conhecimento de riquezas espirituais, tudo em nome de pré-conceitos que só retardam o prazer de se conhecer a vida em sua forma mais leve, simples e descomplicada, pois, na realidade, o ser humano é o maior dos seus complicadores .
E é aquele negócio de dizer que o sorriso de fulano é sonso , que a voz de sicrana transmite falsidade, que a decantada alegria de beltrano é puro interesse nisso ou naquilo! Um monte de bobagem que a gente ouve por aí em nome da "percepção", do "sexto-sentido", mas que, na verdade demonstra uma profunda incapacidade de se viver. Sim, incapacidade , pois, revestido na vaidade que lhe é peculiar, o ser humano muitas vezes abomina o desconhecido por medo . Mais fácil abominar, deixar para lá, não se aproximar... "Cair em esparrela? Eu, hein?" E assim vamos vivendo, em meio a tantas desconfianças, sorrisos que não se abrem, abraços que não se dão, palavras que se represam... Ou torpedos constantemente lançados como forma de autoproteção.
Meu coração está aberto, minhas palavras saem sem nenhum medo de mostrar ternuras. Olho nos olhos, aqui e ali, e vejo tanta generosidade... O mundo não é um mar de rosas, bem sei, mas querem fazer crer que é um inferno, e discordo.
Digo sim à vida, às pessoas, à solidariedade que vejo em tantas manifestações , aos sorrisos abertos que encontro pelos caminhos.
Que Deus ilumine a mente daqueles que perderam a confiança nas possibilidades de bondade do seu semelhante.



 



Escrito por belbruno às 19h31
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