O escritor
Havia um quê na história, que nunca consegui decifrar. Um tanto de lenda, um tanto de mito, aquela mania de misturar o real e o imaginário....
Belvedere Bruno
Diante de suas narrativas, sentia-me vazia de vida. Enriqueceria o seu dia-a-dia com a força da imaginação de escritor? Assim pensando, conseguia me conformar com aquela eterna sensação de viver em câmera lenta. Como tudo podia ser tão efervescente na vida daquele homem?
Por vezes , os fatos soavam até inverossímeis, mas sentia que, para ele, era vital aquela dose extra de adrenalina que o processo de criação lhe proporcionava. Narrando, ele acreditava, e aí estava a força dos fatos. Sentia que não havia mentira, ao menos da forma convencional . Criando, roteirizava a vida, o que o tornava um ser incomum. Fazia-me sentir novos sabores, ver matizes inimaginados, aspirar aromas inebriantes. Mas onde estaria a realidade naquele mundo que parecia delirante e, nem por isso, menos encantador?
Subitamente, me vi fora de prumo. Na mente , um emaranhado de idéias desconexas. Tateando, busquei bússolas...
O ponto final foi inserido no contexto por conta da minha total falta de habilidade em separar o mundo real daquele mundo colorido de faz-de-conta. Não tinha, como o escritor, o dom de viver em universos paralelos. Disse-lhe adeus . Um adeus sem cores e fantasias.
Voltei, então, a viver em câmera lenta.
Escrito por belbruno às 15h46
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LA ESPERO, de Belvedere Bruno
Tradukis Neide Barros Rego (esperanto)
Viraj rigardoj ĉiam starigis al ŝi la demandon: – Ĉu estas li? Kial ne? Liaj okuloj estas nigraj kiel la miaj kaj la brovoj dikaj.
Kial li tiom rigardas min, se ne estas li? – Tiel ŝi opiniis en sia infana naiveco.
La tagoj pasis kaj ŝi pli kaj pli havis la fiksan ideon, antaŭvidante la renkonton de sia vivo.
Jarojn poste ŝi fariĝis seksalloga virino, altirante ĉies rigardojn: lascivajn, vulgarajn, enviajn. Tamen, ŝi ankoraŭ strebis vidi en ili, kion ŝi ĉiam serĉis, forpuŝante iun ajn signon de neebleco. Ŝi renkontos la rigardon, pensis ŝi, ĉar tie loĝas la kialo de ŝia vivo.
La haroj blankiĝis kaj la serĉo ne ĉesis.. En la teneraj rigardoj direktitaj al ŝi en ŝia maljuneco, ŝi ankoraŭ imagas, ke ŝi povos renkonti lin. – Jes, ŝi povos, kial ne? ŝi diras al si mem.
Promenante tra la parko en dimanĉa posttagmezo, ŝi subite stumblis kaj falis sur plankon. Iu tre maljuna sinjoro venis al ŝia direkto por helpi ŝin. Leviĝante, ŝi fikse rigardis lin, kaj prenante liajn brakojn ŝi tremante demandis: – Ĉu estas vi, paĉjo?
La viro, ne dirante ajnan vorton, turnis sin kaj daŭrigis la promenadon.
Escrito por belbruno às 16h41
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Amém
Belvedere Bruno
A cada filho que partia, ela dizia amém. O que pensaria acerca das mortes sucessivas? Nunca entendi o porquê de tanto amém. Nenhum pranto ou desespero. Só conformação. Rememoro a face de cada um que se foi, os túmulos, as flores, a perplexidade dos que ficaram.
Um véu negro sobre a cabeça, os améns sem lágrimas, o olhar impassível; e a entrega plena retratada tão-somente no desfiar de rosários.
O tempo passava e sua existência seguia numa sucessão de rotinas vazias. O único filho que lhe restara era o elo que a mantinha, mesmo que de forma frágil, ligada à vida.
Onde guardara a dor e as indagações reprimidas ?
Quando o último filho partiu, tudo transcorreu da mesma forma. Apenas quis que a deixassem só após o sepultamento.
Naquele dia, foi como se o seu coração se partisse feito uma taça de cristal jogada ao chão, e cada estilhaço representasse as tristes e sempre represadas dores de sua vida.
Chegando em casa, sentou-se na cadeira da varanda e, olhando para o céu, esboçou um sorriso. Nas mãos, tinha o véu envolvendo cuidadosamente o rosário. O semblante parecia , enfim, pacificado.
Escrito por belbruno às 18h51
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Menina-flor
Belvedere Bruno
Ah, saudade! Lembro-me dela com aqueles cachos nos cabelos, espevitada, ao mesmo tempo que terna. Sua maior distração era caracterizar-se de artistas hollywoodianas. Horas sem fim diante do espelho, esmerando-se em maquiagens, penteados, trejeitos. Nos finais de semana, representava no teatrinho armado ao fundo do quintal da casa onde morava. Platéia fiel. Quem sabe, será uma atriz?- era a voz corrente no bairro.
Mentalmente, revejo-a vestida com o uniforme colegial, carregando livros e cadernos, sempre reclamando da matemática, que dizia ser o único entrave na sua vida.
Sobrancelhas espessas e arqueadas, olhos cheios de miopia, fazendo-a trocar fulano por beltrano e gerar inimizades por conta do "ela passou e fingiu que não me viu" . Desculpava-se de tudo culpando o defeito ótico, que dizia ser herança dos avós. Não se permitia usar óculos. Eram vitais os traços de lápis negro delineando os olhos. Que mal havia em não enxergar bem?- dizia. Era bonita naquele franzir de cenho e apertar dos olhos, tentando descobrir coisas e pessoas. Por vezes, parecia contraditória no modo de ser. Uma desenvoltura que não combinava com a aversão a namoros precoces. Enquanto as amigas flertavam, ela lia clássicos contemporâneos. Nada tinha de genial. Simples questão de autenticidade.
Quisera resgatar essa menina! Menina-flor!
Em sonho, vejo alguém caminhar em minha direção. A princípio, tudo é turvo, mas, aos poucos, identifico rosto, corpo e, emocionada, ouço a sua voz. É ela! Avidamente, beijo e abraço a pequena, como se pudesse retê-la para que nunca mais se perca de mim. É forte o desejo de poupar-lhe dores e lágrimas futuras. Olhando-me firmemente, diz:- Viva seus sonhos! Sem medos! A garotinha ainda existe em você, pois não morri! - frisa. E sorri.
Emoção indescritível! Era eu, madura, no meu hoje, abraçando a menina que fui um dia.
Afastando-se, disse adeus, acenou, deixando-me em lágrimas. No corpo ainda florescendo, aquele vestidinho de fustão branco, com bordado na gola...
Escrito por belbruno às 15h55
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Enclausurada
Belvedere Bruno
O tempo escorre pelos meus dedos enquanto, avidamente, busco o que já se foi. A vida é breve. Tal qual um sopro, um suspiro, um clímax. Para onde foram as antigas emoções? Por vezes, em sonhos, parecem me envolver . Puro devaneio de minh'alma inquieta!
Insisto nessa fuga. Entrego-me inebriada aos sons, aromas e imagens de um passado longínquo. Distancio-me da fragilidade do agora, quando sinto o peso da impermanência. Busco eternidades! Imersa no ontem, meus dias correm sem qualquer lampejo de razão que me conecte ao hoje.
Permitam-me estar, sem interferências salvacionistas, no Templo que escolhi. Dispenso sagrações!
Quem sabe, em algum paraíso cósmico, eu encontre o que me parece perdido ?
Estrangeira de mim. Enclausurada na irrealidade de meus sonhos, para todo o sempre.
_Ou até que se desvende o grande mistério ao qual chamamos Vida._
Escrito por belbruno às 11h25
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A espera
Olhares masculinos sempre lhe traziam a pergunta: - Será ele? Por que não? Tem olhos negros como os meus e sobrancelhas grossas. Por que me olharia tanto, se não fosse? -Assim pensava na ingenuidade de sua infância . Os dias passavam e mais envolvida ficava, vislumbrando o encontro de sua vida.
Com o passar dos anos, tornou-se uma mulher sensual , atraindo todos os tipos de olhares. Lascivos, vulgares, invejosos. Contudo, ainda tentava ver neles o que sempre buscara, repelindo qualquer lampejo de impossibilidade . Encontraria o olhar, pensava, pois ali residia a razão de sua vida.
Os cabelos embranqueceram e a busca não cessara. Nos olhares ternos que lhe dirigiam em sua senectude, ainda imaginava que poderia encontrá-lo. - Sim , poderia, por que não?- dizia para si mesma.
Passeando pelo parque numa tarde de domingo, subitamente tropeçou e caiu ao chão. Um senhor, bastante idoso, veio em sua direção para ajudá-la. Erguendo-se, olhou-o fixamente e, segurando seus braços, perguntou trêmula : - É você, papai?
O homem , sem proferir palavra, virou as costas e, balançando a cabeça , continuou sua caminhada.
Escrito por belbruno às 16h00
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Uma vida em sonhos
Belvedere Bruno
Vivia imersa em sonhos. Decerto, neles existiam as cores, os sons e os sabores, que, há muito, haviam sido subtraídos de sua vida, sem que soubesse a razão. Era enternecedora a suavidade em seu semblante quando adormecia se aconchegando entre perfumados travesseiros e edredons. A vida ao vivo já perdera a graça. Acordada, não sabia quem era filho, neto, bisneto, sempre trocando seus nomes e falando sobre fatos remotos como se fossem atuais. O ontem parecia o hoje de forma fragmentada. Afagando seu rosto, a chamávamos pelo nome, suavemente, para que não despertasse assustada: "- Marta, Marta..." Ela entreabria os olhos, e sorríamos, ao perceber que ainda se reconhecia . Esperávamos suas palavras, a interação no nosso dia-a-dia, mas logo buscava o ontem, proferindo frases desconexas, com o olhar vago, constantemente a murmurar : "- Pedro...Pedro...."
Os dias se passavam e mais Marta se isolava da vida fora dos sonhos, cujo enredo só ela sabia. Eram paragens que sequer imaginávamos como seriam.
Naquela madrugada, talvez pela força do vento, caiu a imagem do santo de sua devoção, juntamente com o vaso de margaridas, espatifando-se ambos. O amanhecer , no entanto, chegou pleno de azul, e Marta parecia sorrir, como se abrisse os braços para o mundo. Os olhos já não miravam o vazio. Pedro conseguira, enfim, transpor a barreira do tempo e do espaço e, delicadamente, a conduzia para outra dimensão, ali, onde ela, de fato, sempre fora feliz. De mãos dadas, atravessaram o grande portal . Do outro lado da margem, enternecida, ainda ouvia vozes que a chamavam: " - Marta....Marta .... " Seguindo o caminho, não olhou para trás.
Escrito por belbruno às 18h10
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Um dia, quem sabe?
A Jorge Amado, in memoriam
Num bloco de couro, antigo, onde coloco os títulos de livros que leio, hoje registrei o número 923: 64 contos, de Rubem Fonseca.
Faço uma retrospectiva através dessas páginas e me vejo muito jovem, lendo A Divina Comédia, de Dante. Para muitos, seria um desestímulo começar com tal título, mas para mim foi tão extraordinário, tão cheio de encanto, que me apaixonei por livros. Comecei, então, a devorar clássicos antigos e contemporâneos. De Dante, passei a Camões, Milton e, a cada dia, mais me integrava ao mundo das Letras.
Houve época em que só lia Jorge Amado. Devorei todos os livros da coleção distribuída por Fernando Chinaglia. Jorge tem um estilo que me leva aos locais descritos, e até me sinto interagir mentalmente com seus personagens, que sempre me parecem familiares. Jorge Amado marcou minha carreira de leitora. Lembro-me de que, quando ia a Salvador, me hospedava numa casa na Rua Alagoinhas, bem perto de onde ele residia. Tudo fazia para encontrar meu ídolo. Nunca tive sorte, mas as pessoas diziam: - um dia, quem sabe? Da última vez que fui, ele não estava mais lá. Decerto já havia até se encontrado com todos os seus personagens! Senti saudade do tempo em que não conseguia encontrá-lo, pois sempre havia a esperança implícita na frase: - um dia, quem sabe?
E fui conhecendo um mundo maravilhoso... Clarice Lispector, Dalton Trevisan, Cecília, Drummond, Adélia, Pessoa, Lorca, Florbela, Neruda, Hemingway, Jean Paul, Simone...
Agora, tenho opinião firme em relação às minhas preferências literárias. Thiago de Mello é meu poeta preferido. O escritor Bernardo Carvalho foi uma surpresa, um impacto na minha carreira de leitora, assim como Mia Couto. Por vezes, me peguei prendendo a respiração enquanto lia Nove noites, de Bernardo e Estórias abesonhadas, de Mia. Permaneci em estado de encantamento por um longo período.
Um dia, quem sabe, eu venha a ser uma escritora, na verdadeira acepção da palavra.
Que eu continue dizendo: "um dia, quem sabe?", estando, aí, viva, a chama da esperança...Que seja uma espécie de mantra.
Diferente daquele dia em que passei defronte à casa de Jorge Amado e, com tristeza infinita, devido à sua ausência, não pude mais ouvir a frase que sempre me acompanhava nas passagens pela Rua Alagoinhas.
Belvedere é colunista do Jornal Santa Rosa - Niterói - R.J 
Escrito por belbruno às 19h13
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Em torno da saudade
A Artur da Távola - in memoriam
Belvedere Bruno
Naquele estado entre a vigília e o sono, entrevi seu sorriso, e senti-me envolvida por um suave estremecer. Pensei que seria bom enviar-lhe meu último conto, O homem e as flores. Não havia, não sei por que motivo, partilhado com ele a emoção daquele texto curto e um tanto inusitado. Sabia, no entanto, que ele teria gostado. Saindo daquele estranho torpor, despertei. Vi-me, então, frente à realidade, e uma tristeza indescritível tomou conta de mim. Nunca mais ele voltaria a ler, a comentar meus textos, a fazer sugestões e a trocar idéias sobre eles; e esse era um hábito ao qual me acostumara nos últimos anos. Era uma amizade sincera , que sempre prescindira de comentários e alaridos em torno dela.
Não fui pega de surpresa com sua partida. Nos últimos tempos, havia silêncio. Mensagens monossilábicas me soavam como ritos de despedida.
É difícil preparar-se para um desfecho triste. Dói. Mas nada se compara à dor da certeza de que tudo realmente acabou.
Deixei que o tempo passasse, e agora , aquietada , posso falar sobre a falta que ele me faz.
Dizem que ninguém é insubstituível. Discordo, já que todos são diferentes, têm as suas particularidades: uns, quase perfeitos, e outros, adoráveis por seus defeitos.
Tive a grata oportunidade de entrevistar Artur da Távola no ano de 2005, e marcou-me, de forma indelével, a resposta que dera em relação à grande lição obtida através de seu exílio. Transcrevo suas palavras:
"Aprofundar o meu conceito de democracia, que me fez sair de um socialismo um tanto ingênuo e penetrar na social-democracia. O outro sentido foi o de verificar o quanto amo este país. E o terceiro, foi aprender o significado real da palavra saudade..."
Nunca haverá quem preencha o vazio que ele deixou em minha vida. Guardarei na memória seu constante incentivo às minhas letras, sua generosidade e suas ponderações, que sempre me serviram como verdadeiras diretrizes de segurança.
Que sons sublimes acompanhem seu vôo, juntando-se às amorosas vibrações de todos os que mereceram a amizade, a atenção e a confiança desse ser humano ímpar.
Quisera poder, como o personagem Marcos, do conto O homem e as flores, derramar lágrimas perfumadas para o meu querido amigo que se foi.
Escrito por belbruno às 16h19
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O homem e as flores
Belvedere Bruno
Rosane não escondia sua insatisfação. Marcos sempre fora um homem de metáforas. Enquanto ela continha diques, enfrentava tsunamis e erupções vulcânicas, ele mastigava pétalas de rosas . Ela era ação. Ele, meditação. Puro antagonismo. Nunca se soube porque um dia decidiram que, ficar juntos, seria o melhor para equilibrar as diferenças . O tempo apenas as fortaleceu. Rosane dizia : - Cansei de viver com um sonhador. Sou pé no chão, gosto de tudo às claras. Odeio subterfúgios ! Marcos respondia calmamente : - Retire as rosas pálidas do buquê e deixe apenas os botões .Aguarde o florescer.
- Rosane se inquietava, vociferando : - Raios! Você com essa eterna mania de poesia! Estamos falando sobre a vida, o dia-a-dia, o desgaste de nosso relacionamento e você só raciocina em forma de versos ? - Mas Marcos nunca abandonou o lirismo, avesso que era às coisas densas da vida. A poesia era o seu porto seguro. Morreria assim, mesmo se chegasse aos cem anos, dizia. Crucial o viver daqueles dois amantes. Rosane era exuberante em sua clareza. Marcos se encolhia no constante degustar de flores. Um dia, sem justificar o ato, Rosane destruiu o jardim da casa. No lugar das flores, surgiu uma piscina térmica sofisticadíssima. Marcos, engolindo suas lágrimas, deu adeus às rosas, tulipas, gérberas, palmas, samambaias e avencas.
Anos depois, num canto da casa, escreveria, em versos, a história de sua vida, alheio a tudo e a todos. Acompanhava-o um copo de suco de flores, com dois cubos de gelo . Dos seus olhos, pingavam lágrimas perfumadas.
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Escrito por belbruno às 17h12
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Esse universo virtual
Belvedere Bruno
Desde criança, gostava de escrever cartas e enviá-las para os amigos que moravam na mesma cidade . Era uma troca deliciosa, embora causasse espanto àqueles que não estavam inseridos no contexto. Com o advento da internet, fui abandonando o hábito, mas dele me recordo com muita saudade. O mais moderno meio de comunicação poderia ser perfeito se o correio eletrônico não fosse utilizado de forma compulsiva, sem critério. Regularmente, são feitos repasses de mensagens irrelevantes e, muitas vezes, duvidosas, sem que haja o menor cuidado em lhes verificar a procedência . Por que não há mais trocas pessoais e menos envios generalizados? É a vitória da impulsividade, do imediatismo. Há pessoas que parecem não ter vida própria fora dos domínios da internet, tamanha é a sua compulsão pelo correio eletrônico, utilizando-o sempre de forma insensata. Sequer lêem quando são alertadas sobre os envios excessivos de mensagens, pois sendo centradas em si mesmas, aquilo que lhes chega às mãos, infelizmente, não tem a mínima importância. Já nem comento sobre aqueles que vêm e vão, sem dar satisfação nenhuma. Estou muito seletiva, confesso. O tempo voa e não pode ser desperdiçado. Felizmente, nos meus contatos, há quem chegue como raios de sol, iluminando a minha telinha. Poesias, prosas, pinturas, ou simplesmente, um como-vai-você... São essas pessoas de bom senso que me fazem permanecer . Penso lançar em breve uma campanha em prol da utilização equilibrada dessa ferramenta preciosa que é a internet. Enquanto isso não acontece, faço um apelo: me poupem, por favor! A propósito, como vai você, amigo?
Escrito por belbruno às 17h52
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O segredo das conchas
Belvedere Bruno
Quando Henrique foi chamado para ocupar a vaga de motorista particular da família Martins, ficou eufórico. Ganharia seis vezes mais do que no prédio em que trabalhava como porteiro na Avenida das Amendoeiras. Não entendia como seu amigo José Luís havia sido dispensado por justa causa, sendo homem tão correto.
Os dias transcorriam naturalmente. O trabalho era normal, como o de qualquer motorista particular.
Certa tarde, Margarete , a patroa, chamou-o para levá-la à clínica de estética.
- Henrique, estou precisando de uns tratos. O carnaval está chegando, adoro desfilar em escola de samba, e preciso, urgentemente, dar uma endurecida na bunda, uma levantada nos peitos, fazer umas massagens....
Henrique a ouvia em estado de perplexidade. Como podia falar assim com um empregado?
No caminho para a clínica, Margarete pediu-lhe que desviasse, pois queria dar um mergulho na Praia das Algas, local preferido pela elite da cidade.
Quando estacionou o carro, ele, que não conhecia o lugar, ficou extasiado ao olhar aquele céu azul, a água cristalina, as conchas em profusão.
- Que sensação de paz! - pensou.
Ela, esfuziante, começou a retirar as roupas, peça por peça, até mostrar-se em toda exuberância. Correu pela areia e mergulhou. Ao sair da água, encontrou Henrique de braços abertos e transformaram a praia em verdadeiro paraíso de explosões orgásticas.
O fato passou a repetir-se com freqüência, ficando Henrique cada vez mais apaixonado por aquela mulher tão livre de preconceitos.
- Não vejo a hora que ela largue o marido.... O cara é um velho, tem vinte anos a mais do que ela, eles não têm filhos, tudo vai ser fácil pra nós. - E assim ele fazia seus planos.
A festa de Natal estava próxima. Margarete decidiu fazer reformas na varanda da mansão. Havia uma equipe de trabalhadores em movimento. Ela fazia questão de supervisionar os serviços diariamente. Henrique sentia falta das idas à praia. Margarete quase não lhe dirigia a palavra nos últimos tempos.
Certa manhã, enquanto tomava o café, ouviu um dos pedreiros comentar, em meio a risadas, sobre ida à Praia das Algas. Henrique chorou convulsivamente. Sentado em um canto, cabeça baixa, sentia que os pensamentos o martelavam como se fossem estourar sua cabeça. Tremia. Não conseguia sequer articular palavra .
Naquele mesmo dia, Margarete pede que a leve ao dentista. No caminho, Henrique faz um desvio e ruma à Praia das Algas, sob veementes protestos dela.
Parando o carro, observa a praia deserta . O mesmo céu azul , a mesma água límpida e a profusão de conchas. Não mais aquela sensação de paz.
Henrique a puxa bruscamente para fora do carro, rumando ambos para o mar.
O som que Margarete passa, então, a emitir é ofegante. Gritos e gestos levam-no à lembrança daquele dia, quando se encontraram pela primeira vez . Misto de dores e prazeres...
E vem o silêncio.
Caminhando sobre a areia, Henrique contempla o horizonte, imaginando a longa estrada que terá que percorrer até que chegue ao seu destino.
Escrito por belbruno às 16h20
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Fotografias
Belvedere Bruno
Relutava em abrir o baú onde guardava as fotografias das diferentes fases de minha vida. Sentia que, se o fizesse, de certa forma abriria as portas para os fantasmas que tão bem descansavam naquele lugar. Havia fechado o baú há mais de trinta anos. Para que mexer no que estava quieto? Uma voz vinha lá do fundo de mim, falando sobre prudência, mas, na verdade, esta era uma palavra que eu sempre desconhecera. Confesso ser um tanto frio nas questões pessoais . Passado é passado. Fico refletindo sobre o que leva as pessoas a remexerem no ontem, como se isso fosse dar vida ao hoje. Há trinta e dois anos resido em Paris, sou casado, tenho dois filhos . Esqueci o passado, integrando-me ao presente e planejando o futuro.Não faço parte da maioria das pessoas que tem mania de saudade e sofre de nostalgias ... Não sei como descobriram meu telefone. Vivem me ligando do local onde nasci e passei minha juventude. Por que não me deixam em paz? Sempre digo a mesma coisa: que me esqueçam, porque, se saí sem nunca mandar referências , considero uma violação de privacidade terem descoberto o número do telefone e começado esse assédio. Voltando ao báu, não sei se o abro. Quando decidi trazer as fotografias, foi para preservar as lembranças, não para mim, mas para as gerações futuras. O cerco acabou por me levar a sentir vontade de rever determinadas pessoas, mas, sinceramente , nem sei se lhes recordo as fisionomias. Enfim, abro o baú e um cheiro de mofo impregna o ambiente. Jogo as fotos no chão. Minha cabeça parece explodir. Tudo se embaralha: pessoas, datas, locais. No entanto, uma foto me atrai como um ímã. É Eliana, presença que embalara meus sonhos juvenis . Parece me fitar, sorrindo. Por um longo período, mantenho aquela foto em minhas mãos, querendo, a todo custo, reter o seu sorriso. Quanta saudade! Desperto do devaneio com os olhos marejados. Impetuosamente, jogo todas as fotos de volta ao baú. Sou muito feliz, só não entendo por que o passado cisma em me importunar, se dou valor apenas ao presente .
Escrito por belbruno às 17h09
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http://www.ebooks.avbl.com.br:80/biblioteca1/belvederebruno.htm
MEU E-BOOK
Escrito por belbruno às 10h17
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Um não sem razão...
Belvedere Bruno
Muitas vezes, sinto a rejeição vindo de forma que nenhum motivo exista para que ela se vista com tamanha exuberância. São pareceres baseados em abstrações, medos ocultos e, algumas vezes, egoísmo fantasiado de precauções. Um tremendo "não" à vida espontânea, ao conhecimento de riquezas espirituais, tudo em nome de pré-conceitos que só retardam o prazer de se conhecer a vida em sua forma mais leve, simples e descomplicada, pois, na realidade, o ser humano é o maior dos seus complicadores . E é aquele negócio de dizer que o sorriso de fulano é sonso , que a voz de sicrana transmite falsidade, que a decantada alegria de beltrano é puro interesse nisso ou naquilo! Um monte de bobagem que a gente ouve por aí em nome da "percepção", do "sexto-sentido", mas que, na verdade demonstra uma profunda incapacidade de se viver. Sim, incapacidade , pois, revestido na vaidade que lhe é peculiar, o ser humano muitas vezes abomina o desconhecido por medo . Mais fácil abominar, deixar para lá, não se aproximar... "Cair em esparrela? Eu, hein?" E assim vamos vivendo, em meio a tantas desconfianças, sorrisos que não se abrem, abraços que não se dão, palavras que se represam... Ou torpedos constantemente lançados como forma de autoproteção. Meu coração está aberto, minhas palavras saem sem nenhum medo de mostrar ternuras. Olho nos olhos, aqui e ali, e vejo tanta generosidade... O mundo não é um mar de rosas, bem sei, mas querem fazer crer que é um inferno, e discordo. Digo sim à vida, às pessoas, à solidariedade que vejo em tantas manifestações , aos sorrisos abertos que encontro pelos caminhos. Que Deus ilumine a mente daqueles que perderam a confiança nas possibilidades de bondade do seu semelhante.
Escrito por belbruno às 19h31
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